A recente incorporação do TSH recombinante, comercialmente conhecido como Thyrogen®, ao Sistema Único de Saúde representa um avanço relevante para os pacientes com câncer de tireoide, especialmente porque permite que parte deles realize o tratamento com iodo radioativo sem precisar suspender a reposição do hormônio tireoidiano.
Essa mudança reduz o risco de um quadro de hipotireoidismo provocado pela interrupção da levotiroxina, situação que pode causar fadiga intensa, inchaço, ganho de peso, alterações de humor, sintomas depressivos e lentidão cognitiva. Ainda assim, a incorporação chega de forma restrita e deixa lacunas importantes na linha de cuidado oferecida pelo SUS.
Um avanço que demorou a chegar
Na saúde suplementar e nas clínicas particulares, o TSH recombinante já faz parte da prática assistencial há mais de duas décadas. A medicação estimula os níveis de TSH necessários para a realização da iodoterapia, permitindo que o paciente continue utilizando a levotiroxina durante o período de preparo.
Para quem depende exclusivamente do SUS, a conduta adotada historicamente tem sido a suspensão da reposição hormonal por pelo menos quatro semanas, tempo necessário para que o organismo eleve naturalmente os níveis de TSH. Esse processo pode comprometer de forma significativa a qualidade de vida, a capacidade de trabalhar, os estudos e a realização de atividades cotidianas.
A chegada do TSH recombinante ao sistema público reduz parte dessa desigualdade e torna o preparo para a iodoterapia menos desgastante. O problema é que o acesso foi autorizado apenas para uma etapa específica do tratamento.
Uma incorporação ainda limitada
O novo protocolo do SUS prevê o uso do TSH recombinante para o tratamento com iodo-131, mas não contempla de forma ampla exames de acompanhamento, como a Pesquisa de Corpo Inteiro, conhecida como PCI, e a dosagem de tireoglobulina estimulada.
Na prática, o paciente pode utilizar a medicação durante a iodoterapia e, posteriormente, precisar suspender novamente a levotiroxina para realizar exames de controle ou de estadiamento. Os sintomas do hipotireoidismo permanecem os mesmos, independentemente do objetivo do preparo, o que torna essa diferenciação difícil de justificar do ponto de vista assistencial.
A linha de cuidado acaba fragmentada, pois o recurso está disponível em um momento e deixa de ser oferecido em outro, embora o impacto físico e emocional sobre o paciente continue existindo.
A ausência do PET/CT
As limitações do SUS no atendimento ao câncer de tireoide também ficam evidentes quando a doença evolui ou apresenta características mais agressivas.
Em alguns casos, os exames laboratoriais mostram elevação da tireoglobulina, sugerindo a presença da doença, enquanto a PCI tradicional permanece negativa e não consegue identificar a localização das lesões. Nessas situações, o PET/CT pode ser fundamental para localizar o tumor, avaliar a extensão do quadro e orientar a escolha do tratamento.
Atualmente, o SUS não oferece cobertura de PET/CT para essa indicação. Sem um exame capaz de localizar a doença com maior precisão, a equipe médica pode encontrar dificuldades para definir a melhor estratégia terapêutica e acompanhar a evolução do paciente.
O desafio dos tumores iodorefratários
Entre 5% e 15% dos tumores de tireoide podem sofrer alterações que reduzem ou eliminam a capacidade de absorver o iodo radioativo. Esses tumores são classificados como iodorefratários e deixam de responder à iodoterapia.
Nesses casos, o tratamento pode envolver terapias-alvo escolhidas de acordo com as características clínicas e moleculares do tumor. Entre as opções estão os inibidores de tirosina quinase, como lenvatinibe e cabozantinibe, além de medicamentos direcionados a alterações específicas, como larotrectinibe, dabrafenibe e selpercatinibe.
Embora algumas dessas terapias já tenham sido avaliadas ou discutidas em consultas públicas da Conitec, o acesso nos centros de oncologia do SUS continua muito restrito. Essa limitação afeta diretamente pacientes com doença avançada, que poderiam se beneficiar de tratamentos capazes de controlar a progressão tumoral por períodos prolongados.
A necessidade de um cuidado integral
A incorporação do TSH recombinante deve ser reconhecida como uma conquista para os pacientes, seus familiares e os profissionais envolvidos no tratamento. Ao mesmo tempo, ela reforça a necessidade de ampliar a discussão sobre todas as etapas da assistência ao câncer de tireoide.
A doença ainda é frequentemente chamada de “câncer bonzinho”, uma expressão que simplifica uma realidade muito mais complexa. Mesmo nos casos com bom prognóstico, o tratamento pode envolver cirurgia, iodoterapia, acompanhamento permanente e impactos físicos e emocionais. Nos quadros avançados ou agressivos, as limitações de acesso tornam essa jornada ainda mais difícil.
A equidade no tratamento oncológico depende de uma linha de cuidado contínua, capaz de acompanhar o paciente desde o diagnóstico e o preparo para a iodoterapia até os exames de seguimento e o tratamento da doença avançada.
A incorporação do TSH recombinante representa um passo importante, mas ainda insuficiente. O próximo avanço precisa ser a ampliação do acesso ao medicamento em outras etapas do acompanhamento, além da oferta de exames e terapias compatíveis com os recursos disponíveis atualmente na medicina.
Referência
Conitec. Relatório de recomendação nº 932 sobre a incorporação do TSH recombinante ao Sistema Único de Saúde.

